Soltar-se

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Este mês cheguei ao que eu imagino ser o último estágio da adpatação ao ano sabático.  É a fase de se soltar (também, é claro, avisada de antemão pelos amigos mais experientes ao redor do planeta). Não dá para olhar para um lado novo sem se virar de costas pro antigo. Infelizmente. Porque até agora eu vinha querendo  manter uma espécie de vida dupla. Tomar conta daqui e de lá.

Quando vi minha mãe deprimida e meu cachorro doente, quase morri. Entrei em pânico, comprei passagem (sem ter dinheiro pra isso), fui visitar. Minha decisão de vir para cá pareceu pesada quando percebi quanto os outros são afetados por ela. E se eles não ficassem bem, como eu iria viver com isso? Mas bastou um pouco de tempo para eu perceber  que o universo funciona super bem sem a minha presença. Se meu cachorro continua doentinho, minha mãe está muito melhor. Está até, surpreendentemente, tomando providências de coisas que por anos tinha empurrado pra depois. Como se a minha presença de filha super protetora não deixasse espaço pra ela crescer.

O pior é que não são só as coisas tristes que incomodam e prendem. As felizes também. Você acha que tá todo mundo no Brasil se dando muito melhor que você e questiona sua decisão também por isso. Ouve  falar de um que casou, de outro que foi promovido, do que comprou apartamento. Uns mereciam, outros te fazem virar os olhos pra cima e perguntar se tem alguém lá no alto tirando uma com a sua cara. Como aquele retardado tá ganhando 6 mil enquanto eu pulo no sapatinho pra me entender com as aulas de  tango e faço malabarismo pra  não morrer de fome daqui dois meses? A grama do vizinho explode num verde quase fosforecente. É irritante.

De novo, tudo errado. Não dá pra estar bem aqui se preocupando com as conquistas dos outros lá.  É frustrante e contraproducente. É preciso largar-se de tudo e mergulhar na suas novas experiências. Viver a vida nova, não a velha. Ganhar o que tiver de ganhar, perder o que tiver de perder. Não assumir responsabilidades que não podem ser suas agora, não competir com quem não está a seu alcance. Só assim, mais tarde, vai dar pra seguir em frente (ou voltar) com o espírito renovado.

Pensando  aqui, não sei nem se deveria fazer um blog. Será?

Listinhas

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Ontem, quando o parque Las Heras tava cheio de gente jiboiando no sol, eu me peguei sorrindo sem perceber . Contabilizei mentalmente quanta coisa eu simplesmente adoro em Buenos Aires, coisas que me fazem derramar sorrisos sem me dar conta. Só que aí, em seguida, eu entrei no colectivo e peguei o trânsito mais infernal da semana pra chegar até a aula de modelo vivo. E me peguei bufando e contabilizando as coisas que eu odeio na cidade. Acho que já estou aqui há tempo suficiente pra fazer uma listinha de cada lado – pode ser bom pra gente como o Gui, que anda querendo se mudar pra cá, saber o que ganha e o que perde do lado hermano. Chicas não novatas, sintam-se à vontade pra me corrigir.


Dez coisas que eu amo em Buenos Aires

– Deitar no parque quando está um sol tão lindo quanto o dessa semana. Sentar no café por horas quando está frio.

– Aplaudir quando o filme termina, no cinema. Que costume mais fofo.

– Tomar sorvete de doce de leite com brownie.

– Andar sem rumo por ruas planas. Ladeira é coisa do passado.

– Esperar no máximo 5 minutos pelo colectivo, na maior parte do dia. E poder voltar de ônibus pra casa de madrugada.

– Cerveja de 1 litro, vinhos bons e baratos.

– Avistar um chico guapo a cada 30 passos (no máximo).

– Conseguir pagar aluguel, três cursos, supermercado e afins com um terço do dinheiro que eu precisaria no Brasil.

– Empanada de queijo roquefort, bife de chorizo, purê de abóbora, lentejas, fogazzeta.

– Feirinhas (de San Telmo, da Recoleta, de Mataderos), lojas de acessório de fazer inveja à Acessorize, lojas de design que deixariam a Imaginarium envergonhada.

 

Dez coisas que eu odeio em Buenos Aires

– Os passeadores de cachorros andando com 50 de uma vez nos parques. Que coisa horrível.

– Fila na porta de praticamente todas as baladas. Dessas que só entra um quando outro sai.

– Praia longe. Quanto mais calor fica, mais faz falta uma por perto.

– O trânsito bizarro na hora de ir pro curso.

– O mau humor generalizado dos argentinos.

– O caráter duvidoso da maior parte dos chicos guapos.

– A fila mais demorada do planeta no caixa dos supermercados grandes.

– As padarias. Cadê o pão francês, o croissant recheado, o pastel e a coxinha?

– A não existência de restaurantes por quilo.

– A não existência de lojas grandes e baratas multimarcas, dessas que você entra, pega a roupa, experimenta e sai sem ter que falar com um vendedor.

Começos (e minha singela obra de arte)

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A Tina me disse, antes de eu vir para Buenos Aires, que “sair da zona de conforto é desconfortável”  (sim, eu tenho amigos brilhantes). Achei que tinha entendido essa frase  logo que cheguei aqui. Afinal, você sente tanta saudade, estranha tanta coisa. Demora para se acostumar, pra estabelecer uma rotina. Se questiona por algum tempo se tomou um bom caminho.

Umas duas semanas depois, pós susto inicial , concluí que o pior tinha ficado para trás. Saí por aí cheirando as flores, respirando ar puro e querendo conquistar o mundinho porteño, uma poliana abarrotada de oportunidades. Vivia um misto de alívio e gratidão por ter seguido a grande oportunidade que a vida me deu. Hoje eu sei que o que eu sentia, na verdade, era a maravilhosa sensação de abrir mão do que  já não estava confortável no Brasil: o emprego que eu tinha, a vida na casa da mãe, os meus rolos sentimentais.

Só recentemente eu comecei a entender onde na verdade está o desconforto que a Tina me contou. Não está nos términos, mas nos começos. O difícil é ser a pior entre absolutamente todos os alunos da minha escola de ilustração porque eu inventei de aprender a desenhar aos 27 anos. É ver um moleque que treina desde criança me deixar boquiaberta nas aulas de tango. É ter de provar de novo que eu já sei escrever para editores que não me conhecem. Fácil era fazer kung fu, onde pessoas de pelo menos quatro faixas eram necessariamentes menos hábeis que eu. Era estar em uma empresa onde  não precisava mais provar tanta coisa. Era se relacionar com uma pessoa que já me conhecia, aceitava meus defeitos e qualidades.

Quando a gente lê sobre um executivo que largou tudo pra dar aulas de ioga, a gente acha que é bolinho. Não é não. Cada minuto que a gente acumula na nossa idade, mais vontade a gente tem de manter o nosso conforto. Por isso que um tio meu, antes super andarilho, esses dias me disse que não tem mais vontade alguma de  mudar de São Paulo – imagine então de país. Vai ficando mais difícil com o tempo, sabe? Ou você aproveita enquanto é jovem, ou você dá um jeito de ser jovem quando for velho.

Só para os meus amigos não acharem que eu entrei numa depressão sem volta, lhes digo o lado bom. Eu fiz um desenho segunda-feira – que,, apesar de seguir sendo o pior entre todos da minha sala,  me fez chorar, literalmente, de alegria. Jamais achei que poderia desenhar uma pessoa que realmente parece uma pessoa, com proporções no lugar e tudo o mais.  O bom do desconforto é que te faz querer correr, aprender logo, para ficar confortável de novo. (E devo lhes dizer que essa fotinho chueba não faz juz ao original, tá?)

A receita do suflê

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Na vida nova não existe mais aquele cesto mágico onde você deposita a roupa suja num dia e a vê reaparecer limpa na gaveta poucos dias depois.  Também não tem máquina de lavar, essa maravilha da modernidade. Ou você paga pra lavarem (20 pesos por cesto, e sempre na máquina) ou lava sozinha. Eu odeio lavar roupa e vou continuar odiando indeterminadamente, então vira e mexe eu recorro às lavanderias. Mas sabe que existe um prazer em saber como se faz? É o tipo da atividade da qual eu nunca me aproximei antes e que parecia exigir um conhecimento quase secreto, transmitido por seitas de mulheres do interior ao longo de gerações, inalcancável para mim, reles cidadã metropolitana.

Minha mãe reforçava essa ideia. Parece que ela gostava que eu não soubesse dessas coisas de mulher adulta, era um poder adicional sobre a filha desajeitada. Mas depois que vim pra cá, em momento de necessidade, ela abriu mão: me mandou o caminho das pedras por e-mail, com dicas sensacionais como o sal na água para a roupa colorida não desbotar. E agora já até sei umas adicionais. Sabia mãe, que vinagre serve de amaciante, mais barato e menos poluente?

A culinária é a parte dois do mundo-mulherzinha que eu descobri em Buenos Aires. Houve uma época em que eu não apontaria com sucesso a diferença entre uma alface e uma rúcula. Minha amiga Carol, brilhante, uma vez disse que sabia falar “batata” em seis línguas, mas descascar uma estava fora de cogitação. Aqui eu tenho de cozinhar pra comer e meu livro de receitas tá ficando recheado. O engraçado é que, em geral, eu cozinho sem público. Antes gostava de tentar umas receitas pra ver a cara de delícia de quem experimentasse (ou de “legal, um poquinho mais de tempero e tá quase lá”). Agora faço só pra mim. Fico rindo sozinha, satisfeita como só, quando as receitas da internet dão certo.  Pra minha supresa, elas têm dado certo a maior parte do tempo. Às vezes é mais fácil do que parece, essa coisa de virar adulta.

Katiane, só porque você pediu, aí vai a ridiculamente simples receita do suflê de cenoura:

Ingredientes:
– 4 cenouras
– 1 copo (de geléia) de leite
– 2 ovos inteiros
-100 gramas de queijo ralado
– sal e pimenta a gosto

Modo de preparo:

Cozinhe as cenouras em água e sal. Descasque. Bata as cenouras no liquidificador com o leite, os ovos e um pouco do queijo ralado. Unte uma forma ou um pirex com manteiga e polvilhe com o restante do queijo. Despeje o conteúdo do liquidificador e asse por cerca de 20 minutos.

Uma questão de vocabulário

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As palavras parecem traiçoeiras para o recém-chegado.  O chofer do colectivo levou um mês pra entender meu “uno veinte, por favor”, preço que eu pago pra chegar à casa da Gabi e da Vicky, à Escola Argentina de Tango e a tantos outros lugares que viraram parte da rotina.  Ele não me entendia, eu não entendia a cidade. Descia no ponto errado, andava pro lado oposto. Tropeçava no voculário na mesma medida em que estranhava a engenhoca de fazer pão, a fila no ponto de ônibus, as baladas às 2h da manhã.

Agora que tudo isso já é assim mesmo, é só de vez em quando que o chofer me olha perdido quando eu dito o preço. E é só às vezes a bússola me faz falta. Parece que a língua se desenrola no tempo exato que você precisa para se adaptar a tudo mais. No supermercado também foi assim. Eu me acostumei (de certa forma) ao inacreditável tempo que um caixa leva para atender uma pessoa na mesma toada em que aprendi a falar “salsinha” (“perejil”).

As minhas amigas já estão tão adaptadas que morrem de rir das minhas patacoadas de novata. O vocabulário delas, construído ao longo de anos de convivência com os porteños, suas regras e sua cidade, não me deixa mentir. Elas dizem “che” quando querem dizer um “ei, você!”, “dale” para “ok”, e colocam “re” na frente dos adjetivos para acentuar sua intensidade. Se o final de semana foi “re-bueno”, ele foi ótimo. Elas são semi-porteñas, do ponto de vista gramatical. Eu ainda chego lá.

Impermeável

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Ter um senso limitado de direção, combinado com a falta de placas nas ruas de Buenos Aires, já fez com que eu errasse algumas vezes os meus caminhos porteños. Mas semana passada foi ótimo ter descido do colectivo uns 3 pontos antes do que eu devia, quando estava indo encontrar o povo num bar. Porque me fez passar, sem querer, na frente da Seco, ali na calle Armênia, uma lojinha fofíssima especialzada em galochas, capas de chuva e tênis impermeáveis, tipo umas conguinhas. Quase que eu morri de paixão pelas galochas, tem de tudo que é estampa. Como estamos entrando numa época de promoções, elas estão custando incríveis 160 pesos. Pena que eu só consegui ir comprar depois da chuva pavorosa que teve aqui na segunda-feira.

As minhas são iguaizinhas essa da foto, só que vermelhas. Mujeres compradoras, não deixem de visitar.

Sobre amigos

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Essa semana. no dia 20, foi o “dia do amigo”. Fiquei comovida em ver como é um dia importante por aqui. É dia de comemorar, lotar os bares e fazer festas, de dar um tapinha nas costas reafirmador de laços, de tomar um com seus cumpadres. Lembrei de como em São Paulo costuma ser um dia de dar um parabéns geral no Facebook e seguir com a rotina indecente de trabalho e trãnsito que não deixa tempo para muito mais.

Mas os porteños parece que gostam de cultivar amizades. Para os estrangeiros, como eu, isso costuma ser um impecilho. O comum é que os imigrantes se juntem em turmas multinacionais tão difícil que é encontrar vaga aberta para amizades na vida de um porteño autêntico. A Lu esses dias estava conversando comigo sobre isso. Aqui é comum avistar três ou quatro velhinhas numa tarde de sol, tomando café ou chá da tarde em uma esquina qualquer da Recoleta.  Se você perguntar, elas vão dizer que se conhecem desde o colégio.

Me fez pensar em quantos dos nossos pais aí no Brasil já quase não têm contato algum com amigos de infância. Em como a gente da minha idade entra numa fase de muito trabalho, muito estudo, muito namoro e pouco tempo para ter amigos. Quando você vê, a conversa de todo dia vira conversa de todo mês, depois para  eventuais telefonemas em aniversários e aí desaparece assim, como se fosse natural essa nossa inércia, essa falta de energia em batalhar por relacionamentos tão importantes. Eu não quero. Eu quero ser uma velhinha que toma café com as amigas.

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